Um papel em branco.
A não-ocupação de uma superfície.
Vazio.

O início é sempre uma superfície, pronta para ser explorada, riscada. Neste estado inicial percebo que há uma certa ansiedade em começar logo o desenho e dar como acabado este vazio que o papel me traz. Porém há uma beleza que me faz vislumbrar, por vários instantes ou minutos, essa imensidão apresentada pela área branca do papel. 

O contato da mão com o lápis e da mão na textura da folha.
Encontro do grafite com o papel.
Sinais da materialização de desejos internos.
Fenômenos do inconsciente.

É nesse momento, imagino eu, que se dá o início de uma conversão dos meus processos internos de angústias, medos e necessidades que desejam ser expelidos, transportados para o campo do visível, o campo material.

Surge um risco quase imperceptível
Traçado de uma vontade da criação.
Coragem.

O risco se dá de modo sutil. A força exercida por minha mão não é maior que a força do lápis ou a força do acaso. E é da resultante destas forças que surgirá um caminho inicial, dentre toda a superfície do papel, a ser percorrido por uma imensidão de outras forças igualmente traçadas.

Faz-se como inesperado
Percorre certezas-incertas e finda como se pedisse um recomeço.
Novo risco se faz presente.
Outra estória se inicia.
Percursos

Eis que a linha carece de outra. E um novo risco se materializa e percorre por um diferente caminho. É uma nova criação. Um elemento uno, distinto do primeiro e de todos outros que estão por vir.

Presentificação da linha: - justaposição, intensidade, sobreposição, sinuosidade.
Conceitos bidimensionais.
O que é uma linha?
Elemento básico do desenho, como o um ponto ou um plano.
Simples, bestas, bobas, infantis, tolas.

Se a linha é um elemento básico do desenho, neste trabalho a linha, ou o risco, torna-se o elemento primordial para a construção do desenhar. Mas diferentemente do que poderíamos imaginar ela assume um aspecto ainda mais simplório, quase tolo.

Sutis, viris, impacientes, contidos, trêmulos, ríspidos, ásperos, suaves.
As linhas individualmente são tremulas, inseguras; ora se perdem, ora se encontram. Move-se em ritmo variável. Cada uma, com sua particularidade, vai sendo riscada.

Possíveis novos caminhos formam-se sobre o papel.
Início, meio ou fim indeterminados.
Seqüências.

As linhas ganham força coletiva.

Como não são criadas em uma única direção durante todo o processo, não se tem uma percepção de um sentido único, de ponto de partida ou de um ponto de chegada. O fazer se dá por variados lados do papel e uma vez terminado o percurso de uma determinada linha, o seu traçado se perde, em termos de visualização, ou se une às outras tantas linhas já desenhadas. Misturam-se em um todo, mas ainda assim percebe-se a individualidade de cada uma delas.

Do branco inicial do papel às linhas agora indecifráveis surgem, entre os riscos, espaços vazios.
Possibilidades

Presença do detalhe, da mínima parte.
Pequenos e incontáveis vãos se formam entre os riscos do desenho.
Indefinições de um formar que nos leva a lugar algum ou a todos os possíveis.
Formas ativas

Paro e reparo no desenho. Persigo o caminho de uma linha, depois a perco. Percebo que passei então a olhar não mais para uma e sim para uma centena delas. Logo volto a outro risco que se solta do todo e navega solitário até se perder, dissolver, na própria transparência do papel.

Este é o grande barato do desenhar; o que vemos muda sempre, não é estático.
E a cada novo olhar observam-se suas formas como algo que ainda não se viu ou outra linha que ainda não se seguiu.


Glayson Arcanjo.
Uberlândia, dezembro de 2002.

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