Uma linha é um tempo abstrato, contraído e sugestionado em suas marcações de início e fim. Um desenho é um conjunto de abstrações, uma representação do tempo real. O ato de desenhar precisou de percorrer um grande percurso da história da arte para adquirir autonomia e identidades. Linhas, massas, cores, cheios e vazios. Tempo apreendido, desejado, intuído. A coisa em si, no espírito e na delícia de preencher ou esvaziar de si.

Quando aprecia-se uma obra, um desenho, o eco da autoridade criativa de cada ser exala pela necessidade de conhecimento de tal viés. E quando vislumbramos a intuição em tempo real, vivido, vivenciado, não resta mais nenhuma palavra. A linguagem e a ciência se calam para ouvirem os rumores de uma obra aberta e incessante.

As obras desenhos de Glayson Arcanjo são cheias de movimentos. Tempo real congelado. Experiência sentida e transmitida. Linhas trêmulas, continência. Doçura gráfica. Tempo conhecido e esperado. Vazios que preenchem nossos vazios. As obras falam, seja pela linguagem, ou pelo visual. Sempre ouvimos seus gemidos e suspiros respirantes. O artista propõe uma construção do expectador em ritmo, tempo, e em vibrações. Respira-se com a obra. Diafragma aberto e fechado. Uma cicatriz.

Marcas, impermanências. Arte visceral. Interior e intelecto. Com tantos ecos e criações a saturação não se dá pelo original, mas pelas origens. A arte da contemporaneidade, mais precisamente, do final do século XX, está em estado de choque. E isso é muito bom para que ela nunca pare sua busca na criação. Mais que imagens, as obras de Glayson Arcanjo revelam a certeza que criar não está na moda. Nunca saiu dela.
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Texto de Camila Moreira, escrito em junho de 2003.

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